quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Falecimento: Airton da Oficina.

Neste fim de semana ocorreu o falecimento repentino do mecânico Airton Costa (Airton da Oficina).
Com isso a cidade perde mais um cidadão e fica mais pobre.
Não existe na cidade um carro mais velho que não tenha passado pelas suas mãos. E, sempre estava disposto, tivesse recurso ou não para pagar a sua mão de obra. Era o que lembravam quase todos que foram ao seu velório.
Certa vez, meu velho Passat começou a engasgar e levei a um mecânico que me deu um triste veredicto: "o motor está fundindo".  Sai desolado e desci as ladeiras com o carro morrendo aqui e ali e com a ajuda de amigos que o empurravam para "pegar no tranco" chequei à oficina do Airton. Contei sobre o caso e ele de pronto me disse: "_"Que nada! Esse motor ai não funde assim tão fácil. Vou dar uma olhada. " Tirou algumas peças (carburador, agulhas, cabo) deu uma limpeza geral ali e deu partida e me disse para dar uma volta com ele.
O carro parecia novo e também o meu coração. O Passatão ainda andou por mais uns dois ou três anos quando o repassei para outra pessoa que também ficou com ele por mais um tempão. Não fundiu nada como me dizia outro mecânico que nunca mais procurei. Daí por diante, Airton passou a ser aquele que me socorria com ou sem grana que ele quase nunca queria receber.

Que Deus o tenha e que o recompense.


Veja abaixo uma homenagem feita por Jorge Márcio ao mecânico Airton

UMA OFICINA DES-CONSERTANTE DAS PALAVRAS E DOS NOMES

(para os Airtons e suas mecânicas agora in-finitas e para todos nossos ‘mecânicos’ afetos)

(jorgemárciopereiradeandrade 2016)

Conheci, tive essa honra, lá nas entranhas de Minas,
Um Homem simples, porém, como Nós, cheio de parafusos soltos...
Minas que não é só montanhas, minérios ou Marianas,
São e serão também explosivos ou lugares profundos
Marcantes ou cheios de outras preciosidades..

Era lá, perto das águas minerais, em uma oficina onde podíamos
Misturar os parafusos ou fusos, que não são só os nossos,
Com os ‘ossos’ e engrenagens de muitas outras peças
Muitas sobras mecânicas,
Palavras que só usamos para máquinas,
Para automóveis ou carcaças...

Mas lá o mecânico criava também suas
Galinhas, seus pés de goiaba e seus afetos,
Seus amigos que são a melhor das companhias,
Trocavam não só seus carburadores envelhecidos,
Mas os tornavam os que misturavam outras químicas,
Outros termos e outras significações dos mecanismos...

Mecanismos que só imaginamos nos veículos,
Entretanto também são os que nos movem,
Os velhos pneus imaginários e desgastados que usamos,
Os motores amorosos e maltratados que batem pino,
Os eixos existenciais que quando quebram nos entravam,
Os óleos de encontros que não mais nos lubrificam,
As correias e correntes que não giram, só aprisionam,
Os radiadores furados que deixam rastros de temores vividos,
As marchas e suas caixas que nunca engatam, por tempos duros,
Os faróis ou lanternas antigos que obscureceram outras histórias,
Os freios que precisaríamos perder, mas re-freamos,
As embreagens que nos deixariam sem direção, desgovernados, porém maduros,
Os para-brisas que inventados também ventariam
Ao se abrirem janelas d’outras paragens outras miragens...

Tudo e todas essas parafernálias, misturadas e imbricadas naquela garagem,
Caso por lá estivesse quebrado e sem conserto um velho carro e
Todas as palavras poéticas começadas por Maia, também ilusão,
Ou uma máquina de costurar palavras rotas,
Como MaiaKovski...

As mesmas palavras porcas, parafusos ou ferramentas, mesmo sujas,
Que trocadas ainda em vida, mesmo envelhecidas,
Pudessem não deixar esse mecânico e suas oficinas
Morrerem antes de todas elas, palavras auto-motivas,
Ficarem prontas para a in-finita
Estrada cheia de buracos e sem acostamento:
Aquela que chamamos VIDA.

Px- ou melhor, póseXcrito em homenagem a um amigo (AiRton Costa) das Cambuquiras que pegou a estrada in-finita dos que tem de consertar e concertar com a Dona Morte, por quem já derramei hoje um pouco de lágrimaschuva, que não garantem nossos consolos, mas dizem que lavam o para-brisas sujos de nossos corações enlutados. Imagem – uma foto de Airton próximo ao carro onde meu pai, nos seus 104 anos (2014) recebe um “carinhoso” gole de uma pinga pura e cheia de amizade, de um homem simples e com sua habitual roupa, cheia de graxa, de luta nas mecânicas dos velhos ou novos carros que lhe pediam para ‘conSertar’... ou seria ‘’conCertar’’¿


domingo, 3 de janeiro de 2016

Passagem de ano.

O que comemoram alguns brasileiro, se não há nada para comemorar tanto aqui, como em qualquer lugar deste país?