
Nos bons tempos de Estância, a cidade tinha os seus times de futebol. Dizem que num desses jogava um jovem negro dos seus dois metros de altura, e que chamava atenção do público pelas sua altura e desenvoltura em campo. Pedreiro, trabalhador e honesto, como todo rapaz, tinha a sua paixão. Mas, esse amor não correspondido o fez se transformar num personagem triste que acabou por abandonar tudo e ir para São Paulo e de lá, dizem que foi pelo mesmo motivo, acabou se tornando no andarilho “Martinzão”.
Pegou o pouco que tinha, colocou num saco e tomou o rumo de sua terra natal. Andou muito. Dormia à beira da estrada onde montava a sua cabana de papelão e plástico.
Com certeza essa viagem deve ter levado meses, mesmo sendo a distância da capital paulista à Cambuquira pouco mais de 300 Km. Passava frio e fome nessa viagem de volta até que um dia chegou. Não encontrou provavelmente a sua amada e se transformou definitivamente num homem de estradas. Cambuquirenses que viajavam o encontrava nos mais diversos e longínquos lugares. Ele foi visto com sua cabana à beira da estrada que liga S.Gonçalo do Sapucaí à Cordislândia, na beira da estrada que liga Cambuquira a Três Corações e em vários outros lugares.
Quando voltava à sua terra natal ele acostumava ficar acampado lá pelos lado da “Bacia”, onde ele tinha água para lavar suas roupas e cozinhar,ou perto de onde antes existiu a casa de Charles Berthaud na Av. Visconde de Ouro Preto.
Quem passava pelo local, ou resolvia lhe dar alguma coisa que ele recebia muito agradecido, o via sereno a folhear jornais e revistas velhas, ou mesmo fazendo o seu almoço. Não importunava ninguém, apenas olhava discretamente que parasse para vê-lo como uma curiosidade.Uma das peculiaridades desse cidadão era que ele colocava alguns pedaços de papel nas narinas (como se pode verificar na foto), o que motivo um sobrinho meu quando criança falar que era para não entrar bicho no nariz dele que era muito grande.
Num dia, alguém, talvez um daqueles turistas que tinham casas no bairro, resolveu lhe dar uma barraca de “camping” para que ele pudesse ficar mais confortável e não ter que carregar toda aquela “tranqueira” pesada nas costas quando mudava de lugar.
Martinzão calado recebeu a doação e a usou por poucos dias.
Era pequena e azul mas dava para dormir e se abrigar da chuva e do frio, em vez de usar as enormes caixas de papelão e plástico.
Mas, o que parecia a solução para o seu problema de moradia acabou por ser uma desgraça.
Num dia, quando Martinzão saiu talvez para apanhar água para os seus cozidos, alguma dessas “almas penadas da vida” colocou fogo da barraca e queimou tudo que o pobre negro tinha, talvez até as suas lembranças e parte de sua vida.
Moradores o viram desorientado a caminhar sem nada pelas ruas como se tivesse perdido ainda mais a noção do tempo e espaço. E, sem lugar para dormir e nem roupas para se trocar deve ter sido apavorante para aquele pobre coitado que procurou a sua terra natal como um refúgio.
Essa foi a última imagem que tiveram daquele negro que apesar de ter um tamanho maior do que a maioria e dormir nas barracas não metia medo em ninguém.
Martinzão tom alguma estrada e novamente, sem rumo, sumiu e virou lenda.
Pouco tempo depois comentava-se na cidade que um andarilho negro e alto fora encontrado morto na beira da estrada numa cidade da região. Calculou-se que poderia ser aquele cambuquirense andarilho, mas enterrado talvez como indigente em algum lugar, nunca foi identificado, mesmo porque ninguém conhecia os seus parentes, se é que os tinha na cidade.
Uma outra hipótese para o incêndio foi que ele poderia ter deixado alguma coisa a cozer perto da barraca e já que era feita de material altamente inflamável fora consumida instantaneamente.
Na foto acima, está Martinzão na sua barraca de papelão e plástico, com as narinas tapadas com papel, a mirar bem as lentes de Margarida Camarini, sem saber que este seria o seu registro para posteridade.