TIPOS HISTÓRICOS DE NOSSA CIDADE.

Cid Ney Villar se foi, mas deixou essa relíquia abaixo: um texto sobre Sá Belarmina, parteira que pelas suas mãos nasceram muitos cambuquirenses e a cidade deve a ela muito mais que lembranças. Quem sabe num dia desses algum político faça algo em homenagem dela e de muitos outros benfeitores quase anônimos de nossa cidade?                    

Sá Belarmina

                     Fonte: Jornal Encontro.


BATATA E O PAPEL DE TODOS NÓS.

Luiza, ou "Batata Doce" num "close" tirado de foto de Margô Camarini. Isso é para que não digam que só falamos dos "figurões".
Batata com Feijão Prá Janta, Marretis, Capricho, Zé do Pito, Dito Carrinho, Luziá, Tiana Veranista, Tiana Tiragosto, João Garrucha,... e outros tantos que já se foram, de alguma forma também fizeram, aos seus modos, a história de nossa cidade. Pois, cada de um de nós tem o seu papel dentro da comunidade em que vivemos.
Já pensou em qual você se encaixa?
Se você não é um desses tipos populares que na sua inocência ou inconsciência exercem às vezes o papel principal às vezes o de coadjuvante, pense no papel que tem dentro da sociedade.
Ninguém que vive em grupos vive alheio aos fatos, nem os doentes acamados. Você de alguma forma, tem alguma "ação" ou "omissão" que se traduz nas ações de outros, cujos resultados são visíveis ou invisíveis no meio em que vivemos.
Existe o corrupto, aquele que quer levar vantagem em tudo e como um "psicopata"* (talvez até sejam!) nunca tem remorso. Existe o crítico, o crente e o descrente, o que espera e o que faz.
Em qual papel você se encaixa? Qual a imagem que quer deixar para o futuro? Pense nisso!
* Clique na palavra em destaque e conheça a definição desta.

FEIJÃO PRÁ JANTA.
Para quem não nasceu ou viveu em Cambuquira, o título pode até soar como mais uma comida típica mineira. Mas, não é. “Feijão Prá Janta”foi o apelido que deram a um desses seres “especiais” que vêm ao planeta terra com alguma missão que os pobres mortais, dito normais, não conseguem entender. Mas, pode crer que nada acontece por acaso e tudo tem a sua explicação de “ser” ou “não ser”.
Seu nome, salvo engano, ele nos contou certa vez e há muito tempo atrás, era José Reis. Mas, ninguém sabia desse seu nome de registro pois todos, como “Capricho”, o conheciam como o saboroso nome de “Feijão”. Aliás, com sobrenome e tudo: “Feijão Prá Janta”.
A primeira vez que o vi, foi nos meus longínqüos doze anos, quando nos mudamos para o “Bairro Carioca”, naquele tempo com o apelido nada pomposo de “Pasto do Dr. Ordomundi”, pois quase não existiam casas por lá.
José Reis apareceu na minha casa com um boné de pano cheio de chuchus e ofereceu a minha mãe, que mesmo receosa aceitou para mais tarde jogar tudo na lata de lixo. A razão da sua atitude era que os cabelos do jovens rapaz não tinha mais lugar para “lêndeas”. Em troca daquele presente, minha mãe que já o conhecia, lhe deu um lanche que ele saboreou muito contente. E, assim ele acostumou a passar sempre por lá para pedir alguma coisa.
Com o tempo, José Reis virou “Feijão Prá Janta”. O motivo: ele passou a pedir dinheiro. E, quando lhe perguntavam para quê, ele respondia:
“__Prá comprar feijão, feijão prá janta.”E, assim todo dia ele passava por lá com o mesmo argumento: “prá comprar feijão prá janta.”
Na realidade, o pobre José Reis já era viciado num cigarrinho de palha ou de papel. E, o dinheiro era mesmo para comprar cigarros, que ele fumava sem parar até tornar os seus dentes todos amarelos.
Com o correr do tempo, Feijão Prá Janta já declarava que o dinheiro era mesmo para “comprar cigarrinho” , “tomar cafezinho”e “feijão prá janta”, é Claro!...
Todo dia ele passava pelo bairro e se dirigia a zona rural do Marimbeiro e Miranda de onde ele voltava à tarde com um saco de palhas de milho nas costas, encomenda de sua mãe que trabalhava com artesanato, de onde ela tirava recursos para o sustento de José e de mais uma irmã.
Nos últimos anos de sua vida, levaram-no para viver na Vila Vicentina, onde ele virou uma espécie de porteiro, que ele mesmo deve ter escolhido para continuar esmolando com o velho costume e os mesmos argumentos de sempre; “cigarrinho, cafezinha e feijão prá janta”.

Depois nunca mais o vi. E, mais tarde, soube que teria terminado a sua missão na terra e não estava mais entre nós. Mas, o sonoro “feijão prá janta” ainda ecoa na mente na minha mente e na de muitos cambuquirenses que o conheceram. Como um anjo que nunca prejudicou ninguém foi, como outros tantos especiais que têm a missão de nos fazer refletir sobre a existência de cada um de nós.


Na foto acima, gentileza de Margarida Camerini, José Reis Feijão Prá Janta parece que entendia bem o sentido daquele momento e sorriu,com o seu sorriso literalmente amarelo, para posteridade.

BATATA DOCE

Ela detestava esse apelido, que não sei porque ficou conhecida.
Adorava que a chamassem de Luiza, o seu nome de batismo, embora quase todo mundo a conhecia mesmo como “Batata” ou “Batata Doce”.
Quando me via, nos dias de bom humor, ela se dirigia a mim com uma pergunta repetida continuamente. E, mesmo que eu confirmasse a sua indagação sobre o meu nome ela continuava a repetir por diversas vezes. No final, entoava, para completar, um sonoro “é!...”
__Seu nome é Roberto, Roberto da Naninha. Roberto, não é Roberto? É!...
Para não contrariar, sabendo que ela ficaria furiosa se não confirmasse, eu afirmava:
__Sim! Sou o Roberto da Naninha.
__Pois é Roberto da Naninha, Roberto da Naninha........ “Ela repetia mais um tanto de vezes.
Mas, tinha dia que nem podíamos dizer-lhe: “Oi Luiza!”.
Quando estivesse de mau humor, o melhor seria era fingir que nem a conhecia. Pois, se estivesse enganados com relação ao seu estado de espírito, ela até poderia vir de novo com a mesma indagação:
__Roberto da Naninha? Pois é! Roberto da Naninha.

Diziam que ela num daqueles acessos de mau humor, certa vez pegou um menino lá no Bairro da Lavra e deu-lhe várias dentadas que o levaram para hospital para alguns pontos no traseiro. Mais tarde, esse garoto tornou-se prefeito da cidade. As pessoas até brincavam com esse episódio e diziam em tom jocoso que só a Batata Doce tinha condições de dar um jeito naquele prefeito.

Mas, o episódio mais engraçado aconteceu com dois primos meus: João Roberto e Dirce.
Minha tia, muito brincalhona, para chatear o filho dizia que quando ele crescesse ele iria se casar com a “Batata Doce”. E, num dia ela comentou com Luiza sobre essa “promessa”:

__Luiza, quando João Roberto crescer, ele vai se casar com você!...

E, não é que ela acreditou.Com o passar do tempo, ela foi à casa de minha tia para cobrar o cumprimento da promessa. Queria mesmo se casar com o jovem rapaz e não desistia disso. Minha tia contornava o fato com desculpas de que ele ainda era muito jovem e que estava estudando.
Mas, num dia,Dirce, irmã do jovem João,irritada com tanta persistência, acabou por falar sério com ela. Disse-lhe que não havia condições daquilo acontecer e que ele era um rapaz jovem e ela já idosa.
Para que ela fez isso? Luiza tomou de um ódio mortal pela “cunhada” e saiu depressa da casa para nunca mais lhe dirigir uma palavra e nem voltar à caça daquele noivo. Mais tarde as duas se encontraram na Prefeitura, onde Luiza se dirigiu para indagar sobre alguma coisa.Dirigiu-se à Dra. Mariângela, assessora do prefeito que ficava no mesmo recinto. Como esta estava ocupada, Dirce resolveu se dirigir a Luiza para esclarecer-lhe sobre a sua indagação. Luiza virou o rosto como alguém que levava um a bofetada e falou em alto e bom tom:

“__Oh Mariângela! Mariângela! Diz pra essa menina que a conversa ainda não chegou na cozinha não!...

Todos riram muito, menos Luiza que continuou muito séria.
Mas, Luiza, ou “Batata Doce”, como todos a conheciam, era uma pessoa ativa nos seus negócios. Recebia uma aposentadoria como doméstica com a qual pagava corretamente as suas continhas.Inclusive tinha uma continha na Loja do Pinguinho onde todo mês ela ia lá para pagar a sua prestação.
Nos últimos tempos, teimosa como era, fugia da Vila Vicentina onde não queriam que ela saísse mais, devido à idade. Mas, como o portão nunca era trancado. Luiza saia para os seus passeios e quando voltava já era noite. Isso quando não resolvia dormir na via pública mesmo.
Numa dessas saídas, ela dormia assentada na soleira da porta da casa do Sr. Teófilo Silva, perto do Supermercado do Jaime. E, foi nessa mesma soleira que Margô a fotografou, talvez num dia de bom humor pois ela não se opôs a isso. E, com certeza deve ter passado a noite lá.
Não sei quando foi a sua passagem. Só sei que ela não está mais conosco e com certeza faz falta na paisagem de Cambuquira.

Para mim, ao olhar sua foto vejo que ela ainda se dirigiu à Margô que a fotografava. Mas, essa mesma cena me faz lembrar nas suas constantes indagações:

“__Você é o Roberto da Naninha. Não é? Roberto da Naninha! É!...."


CAPRICHO


Capricho era um rapaz trabalhador. Trabalhava de “chapa” e carregava e descarregava caminhões de milho e café que partiam e chegavam à cidade. Mas, num dia da vida experimentou um gole de pinga e nunca mais foi o mesmo. Aquele fatídico gole despertou o seu alcoolismo transformando-o de homem trabalhador a um cachaceiro de mão cheia. Aliás de mão vazia, já que para manter o vício passou a esmolar, dormir pelas praças, andar sujo e descabelado.
Mesmo assim, ele não se tornara a pessoa chata que a maioria dos “bebuns” quando se tornam escravos da cachaça. E, mesmo bêbado continuou a ser o homem espirituoso de sempre.
Quando pedia e não tinha a sua vontade realizada, ele dava uma resposta que as pessoas acabavam por rir:

__ Dá um trocadinho aí p’rá eu comprar alguma coisa de comer!..” Falava ele.

Em resposta a maioria dizia:

“__Você já está bêbado! Por isso, não dou nada! Vai trabalhar vagabundo! .."

Capricho olhava bem nos olhos do interlocutor, e mesmo que não conhecesse respondia:

“___Enjoado!....Quando você morrer, você vai p’ro céu! "Viu beim"?

Essa era a sua maneira de “xingar” todos os que lhe negavam o "auxílio".

Um outro fato engraçado que me contaram aconteceu com um prefeito da cidade:

Capricho ao vê-lo na rua saiu com essa:

__Prefeito! Sadam Hussein está te procurando!...
Então o então prefeito curioso, perguntou:
__Mas o que é que Sadam quer comigo, Capricho?
E, o nosso personagem respondeu:
__Ele quer saber como você acabou com Cambuquira sem usar nenhuma bomba!
E, completou com a sua gargalhada irônica e forçada:
__Ah! Ah! Ah!....

Capricho e a criançada se identificavam bem. Os meninos, por ele chamados de "mindurim" brincavam com suas piadas sem nunca o maltratar. Mas, mesmo que algo assim acontecesse ele sabia tirar "de letra" e saía com o seu ironismo sarcástico que não perdoava ninguém.

Passou o tempo e não se viu mais o nosso personagem. Soube-se que ele tinha morrido muito tempo depois. Dizem que a família pediu para avisar na Igreja. Mas, se esqueceram de dizer que Jose Carlos Borges(ou Joaquim?) era a mesma pessoa que a comunidade conhecia como "Capricho".
Esse anjo deve estar voando no céu.

NELSON LEMES (AGUEIRO)

Nelson Lemes, tido por muitos como um simplório que só sabia carregar água mineral para os fregueses que tinha, era um homem dotado de inteligência acima da média. Atrás daqueles óculos que melhoravam a pouca visão dos seus olhos, residia num corpo fraco um poeta. No seu carrinho, que ele conseguia puxar com dificuldades apesar do peso dos diversos garrafões d’água que ele apanhava no Parque das Águas, ele ostentava inúmeras frases próprias, versículos bíblicos e pensamentos do dito popular, que viraram atração.
Os turistas paravam para se fotografar com ele e sua imagem deve ter corrido o país como lembranças dos velhos e bons tempos da nossa Estância Hidromineral.
Dizem que, como espírita, era capaz de dissertar de improviso, o que encantavam a todos no Centro Espírita Cristão de Cambuquira. Muitos acreditavam que naquele momento ele incorporava algum ente de luz que mudava a sua voz e o fazia um portador de belas mensagens religiosas. Ao sair do centro religioso, Nelson voltava a ser o “agüeiro” de sempre.
Nos últimos dias de sua vida, ele passou a freqüentar também as missas, sem perder nenhum domingo ou dias santos. E, com o mesmo fervor e dedicação acompanhava a liturgia, cantava e rezava com todos os demais.
Num dia tentei ajudá-lo a empurrar o pesado carrinho morro acima perto do Ponto dos Cem Réis, persebendo que ele já sentia dificuldades para puxar aquela carga pesada que quase o levantava do solo. Mas, ele rejeitou a minha ajuda e disse que não era para me preocupar não que ele agüentava. E, subiu sozinho a grande ladeira até a Rua Direita onde ele tinha alguns fregueses.
Passaram-se alguns meses e não vi mais o velho agüeiro. Disseram-me que ele estava doente e que já não conseguia mais puxar aquele seu pesado carro alegórico.
Nelson, pouco tempo depois, foi ao encontro de seus antepassados e deixou nossa cidade mais triste sem as suas frases poéticas, e menos interessante sem esse atrativo diferente.
Na foto, Nelson olha bem a lente da câmera de Margarida Camarini como alguém que conscientemente queria transmitir alguma mensagem para o futuro.

Obs.: Agradecemos a gentileza de Margarida Camarini por nos ter cedido as fotos acima.

ATENÇÃO! " Necessito da sua ajuda para levantar dados e fotos de outros personagens que passaram por nossa cidade. Entre eles, posso citar "Marretis", "Dito Carrinho", "Martinzão", "Purgante" entre outros. Se alguém tem fotos de um desses personagens e puder ceder, copiaremos e devolveremos os originais. Entre em contato com a administração do blog, via comentários abaixo ou pelo envelope na barra lateral.
Obrigado!
Atendendo ao meu pedido, recebi fotos de outros personagens populares de nossa cidade. Quem atendeu o nosso apelo foi o Sr. Luiz Moura Gomes, morador da cidade de S.Caetano do Sul, Estado de S.Paulo, turista que costumava visitar nossa cidade onde também tem alguns laços familiares.
De nossa parte, nossos sinceros agradecimentos por mais essa colaboração!"

Este aí abaixo é o Nique (Nilton Lemes), uma dessas pessoas especiais.
Nique se tornou muito popular na cidade, entre outras coisas, pela constante presença dele nos velórios da cidade. Não importava de que família fosse o finado, lá estava ele. E, quando ouvia o tradicional aviso fúnebre do alto-falante da Igreja Matriz, ele já perguntava: "__Quem morreu? Onde é o velório? " E, rumava para o local do morto.
Dizem que por ironia do destino ou por ingratidão das famílias, em seu velório não havia quase ninguém.


Foto enviada por Luiz Moura Gomes - S.Caetano do Sul - SP

MARRETA, OU MARRETIS.

Dizem que ele inspirou o personagem "Mussum" (Trapalhões) de falar com aquele modo peculiar de pronunciar as palavras.
Se você ainda não o identificou. Este é o Marreta ou "Marretis" que como, "Capricho", "Batata Doce" deixaram essa terra para morrar no andar de cima, em outra dimensão, onde com certeza nos olham aqui embaixo. Não o conheci pelo nome próprio, só por esse mesmo!...E, se alguém souber mais sobre ele, sua família e origem, por favor me informem.
Marreta trabalhava como serviçal em hotéis da cidade. Por causa disso, ganhou a simpatia dos turistas. Todos gostavam de ouví-lo na sua pronúncia peculiar, talvez uma imitação rudimentar do "carioquês" tão comum nos tempos de temporadas.
                                                                RAPADURA!
Rapadura foi um dos mais simpáticos charreteiros de nossa cidade. Descendente de italianos, tinha uma maneira própria de falar com frase e palavras recheadas de malícias, o que o tornou um tipo bem popular entre os turistas.
Enquanto levava os turistas para passear, ia contando histórias, piadas e pegadinhas. Assim, sempre alegre ele levou a vida, apesar das dificuldades.
Deixou uma grande descendência na cidade, entre eles "Fidirico", "Pedro Rapadura", "Zado" e outros mais.
Essa história não termina aqui. Ela continua com mais pesquisas.


Contribuição de Luiz Moura Gomes (S.Caetano do Sul-SP)
Posted by Picasa


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