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sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Tributo a Charles Berthaud


Uma cidade sem memória é uma cidade sem alma.

Nossa cidade está se tornando um lugar assim. As pessoas que a conduzem não têm se preocupado com a sua história. Não valorizam as pessoas que por aqui passaram e que de certa forma contribuíram pelo que a cidade foi, ou que pela cidade é hoje em dia. Os registros devem ser feitos para que as gerações futuras possam ter um ponto de referência da sua cidade, da suas origens. Hoje, pouco se preocupa com isso por aqui, ao contrário de outros lugares onde essa cultura existe. Alguns marcos da história, presentes nas casas, nas praças, no patrimônio público caem ao chão pela mão do homem que acha que só novo deve prevalecer. Assim, destruíram a casa de Charles Berthaud, uma das primeiras construções de nossa cidade e outras que nossa geração nem chegou conhecer.

“Na noite daquele dia, ainda na década de 60, depois que as paredes foram abaixo, e a ‘casa mal assombrada’ caíra ao chão, choros e vozes ecoaram pela vias do bairro que se formava no local. Pareciam crianças lamentando a perda de alguém ou de alguma coisa muito querida. E, como se procurassem outro abrigo tomaram o rumo da nascente do sol sumindo na colina onde hoje se localiza a subestação da Cemig.”

A descrição acima reproduz a fala de algumas pessoas que moravam no Bairro Carioca no dia da destruição da casa de Berthaud. Interpretaram aquele fenômeno sobrenatural como de fosse voz, ou vozes, das criaturas que habitavam o velho prédio, por muitos anos abandonado, e que serviu de abrigo a inúmeros forasteiros que para cá vieram se instalando e por aqui formando famílias que ainda estão por aí.

Mas, por que esse casarão em estilo francês ficou abandonado, mesmo com sua suntuosidade? Teria ele alguma maldição? Ou, foi condenada pela fama que lhe atribuíram de conter os fantasmas dos enfermos que procuram o Dr. Charles para se tratarem e ali faleceram? Ou, ingratamente achavam que o nobre francês depois de morto se recusou a abandoná-la. Ninguém sabe a resposta.

Mas a ingratidão com o prédio não só foi maior do que a ingratidão com o próprio proprietário, que convidado pelo Governo para estudar as águas, graças a sua fama de ter feito um bom trabalho junto às águas minerais francesas, resolveu adotar a pequena vila como a sua terra. Dizem que além de usar as águas como alternativa medicinal, também cultivava no seu sítio localizado próximo as sua casa um herbário de plantas medicinais com que curava vários enfermos.

A água que servia a propriedade era tirada de uma cisterna existente ainda hoje dentro de uma das propriedades da área. Existe ainda um compartimento subterrâneo que dizem leva até a lateral do poço. No terreno, hoje pertencente a particular existiam algumas fossas céticas, algo inexistente nas demais propriedades da vila que só ganhou um serviço de esgotos bem mais tarde quando Cambuquira já tinha sido declarada município autônomo.

Ali perto da casa, onde hoje se localiza a casa de D.Norma Siqueira, ele reservou uma área para servir de cemitério, onde eram sepultadas algumas pessoas.
As pessoas de posse da sociedade eram sepultadas em Campanha, município a que pertencia à vila.
Com o aumento do número de moradias, a cidade precisou de um cemitério. Foi então que, na mesma época quando se construiu a primeira Igreja, reservou-se no fundo da capela uma área para servir para os sepultamentos. Foi assim que o cemitério de Berthaud ficou abandonado, até cair no esquecimento e ninguém mais saber as sua existência.

Muitos anos depois, já na década de 60, um pouco depois da demolição da casa é que se descobriu, com a perfuração do solo para construção das bases da residência dos Siqueira, a existência de algumas covas naquela área. Em uma dessas covas, existia uma bela “trepadeira cor de rosa”, que o autor deste texto desde menino tentava arrancar para replantá-la no jardim de sua casa.
O novo cemitério municipal só foi criado graças à doação de Charles Berthaud que também foi o primeiro morto sepultado, inaugurando o novo campo santo.
Na escola primária, só ouvimos falar que era um cientista francês que estudou as águas minerais. E, para não passar em branco sua existência deram tardiamente o seu nome à rua formada na estrada que ia da Igreja de NS. Aparecida até a sua propriedade.
Na minha opinião, o Bairro deveria se chamar Charles Berthaud, pelo menos a parte do Bairro Regina Coeli, hoje vulgarmente chamado de Bairro Carioca. Só assim, a cidade pagaria um pouco que ela deve a esse ilustre francês.
Cemitério Municipal doado por Charles Berthaud.

Está na obra do Padre Antonio Ferreira:

“A um quilômetro do centro da povoação, construíra o Dr.Charles Berthaud a sua vivenda, com laboratório anexo.
Ele havia colaborado na captação das fontes de Aix-les-Bains, na Sabóia, por isso a Companhia “União Industrial dos Estados do Brasil”, não duvidou contratá-lo para proceder a analise das fontes de Cambuquira.
Era homem de valor. Os seus preparados químicos gozavam de merecida reputação, mormente na Capital da República.
Proverbial era a sua fidalguia e caridade, máxime com os pobres, cujos gemidos nunca deixou de escutar.
Na chácara por ele formada, mas hoje desaparecida, e onde esgotou soma considerável de dinheiro e esforços,viviam se aclimatadas muitas árvores e plantas européias.”
CAMBUQUIRA, 1916.
Nota do blog:
Para mim, a destruição do casarão foi um dos piores crimes contra a nossa história, praticado em nossa cidade. A construção sólida só necessitava de uma reforma. Alí poderia ser instalado um centro cultural que a cidade não tem, ou um museu, ou até mesmo uma repartição pública. Os telhados de pinho importado da França, no dia da demolição, pareciam colocados naqueles dias, as madeiras do assoalho exalavam o perfume do pinho de riga, também importado.E, as paredes só cairam quando puxadas por um caminhão.
Na noite seguinte a demolição, um coro de vozes de crianças soou pela madrugada.E.como se tivessem a sua casa destruída essas voz tomaram rumo incerto (fato verídico contado pelos poucos moradores do Bairro Carioca naqueles tempos). Um mistério, como tantos outros inexplicáveis nesse nosso mundo.

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2 comentários:

Coluna Mulher disse...

Ola cheguei ao seu blog porque procuro minhas raízes. Cambuquira é minha terra natal sou neta de Afonso da Fonseca e Ana Almeida da Fonseca Ela filha de Antonio Almeida Santos e Gertrudes.
Vi meu tio Japonês e passei pelo dos Lemes estão todos ligados e li sobre Charles Berthaud e me recordo quando menina que olhava para casa fascinada
E tinha muitas lendas ou verdades eu vi a entrada do Túnel que em sussurros se dizia ser um laboratório dentro da terra e que sai dentro da cisterna e comunicava com a casa Não sei se lenda ou verdade Mas a entrada do túnel eu vi dizem que o laboratório de Astronomia esta em cima
Faz mais de cinqüenta anos que escutei
Por isto tínhamos medo dos fantasmas e do que escutávamos e era o Maximo chegar perto, não esqueço Que vontade de entrar. Sem duvida ele foi um g5rande homem Charles Berthaud e deveria ter sido preservada sua casa
Fica meu Abraço
Dione Fonseca

lekinha disse...

ola sr Lemes,parabens pela materia!!
gostaria q realmente a asa do DR; CHARLES BERTHAUD,DEVERIA TER SIDO PRESERVADA,O GRANDE CIDADAO Q MERECE O RESPEITO DO POVO DE CAMBUQUIRA.HISTORIA Q NAO PODERIA SER APAGADA E MUITO MENOS CAIR NO ESQUECIMENTO.
Q PENA!!.