
SIGMUND SZABÓ E O CENTAURO Na década de 60, um judeu húngaro, com idade avançada e já com alguma deformidade na coluna resultada talvez de um processo de osteoporose, encantado com o céu de Cambuquira. Trouxe então um telescópio de 250 mm montado por ele próprio e começou divulgar a astronomia junto à população e turistas que visitavam a estância. Começou primeiro no próprio quintal de sua casa localizada perto do Hospital na Avenida Julio Lemos de onde se poderia observar a lua que nascia atrás da igrejinha da Lavra. Com o sucesso e aprovação da comunidade resolveu juntamente com algumas outras pessoas fundar a entidade que denominou CEA-Centro de Estudos de Astronomia, associação que existe até hoje na cidade. Partindo daí, o CEA sob a sua direção resolveu construir um observatório que levaria o nome de CENTAURO num terreno localizado no fim da Av. Charles Berthaud, provavelmente doado pelo antigo proprietário do local, o Dr. Ordomundi Gomes Ferreira. Com os poucos recursos que tinha disponível, ajudado pela comunidade e pela prefeitura, começou a construção do prédio para abrigar esse centro e o observatório. Uma das primeiras coisas que fez foi juntar jornais da época que se faziam referências ao projeto, fotos e atas da organização e numa caixa hermeticamente fechada tudo foi colocado e bem embaixo da cúpula entre a parede do salão e uma coluna que sustentaria o aparelho, foi lançada a pedra fundamental com esse registro histórico para posteridade. Para construir a base do prédio, havia necessidade de muita brita e como a cidade não dispunha de uma máquina brita dora, resolveu usar o trabalho de diversos garotos do bairro, pagando-lhes por lata de 20 litros de pedra britada. Levantado o prédio, colocou-se a cúpula que refletia a luz do sol e podia ser enxergada de bem longe. Os turistas e viajantes que passavam pela estrada que cortava o Marimbeiro já viam aquela construção diferente. Com isso o observatório passou a compor a paisagem da cidade, como a cúpula do Hotel Elite, as torres da Igreja Matriz e outros prédios de destaque. Mas, por motivos alheios ao nosso conhecimento, pouco se sabe, ou quase nada, sobre a paralisação daquela obra que por mais de 30 anos ficou abandonada com a sua cúpula reluzente refletindo a luz do sol e os raios do luar. Dotado de grande inteligência e habilidade, o velho dentista passava horas e horas manipulando suas lentes para deixá-las no ponto então montar as lunetas e o telescópio capaz de ver as crateras da Lua, anéis de saturno, planetas e nebulosas que enfeitam o infinito. Amante da ciência queria difundir a astronomia junto às escolas e chegou a dar aulas no ginásio Clóvis Salgado, onde os alunos, considerando que aquilo não era uma matéria do currículo escolar, pouca atenção davam às suas explanações. Mas dotado de muito humor, não ligava para a bagunça dos alunos e continuava a explicar os fundamentos dessa ciência. Enquanto isso, bolinhas de mamonas cruzavam a sala. Num certo momento, uma dessas bolinhas acertou o quadro onde escrevia e ele simplesmente disse: “__Parece que estão jogando uma bolinhas por aqui?!...” E, continuou falando sobre órbitas, planetas, nebulosas e demais corpos celestes. Sigmund tinha um velho carro que parecia ser um modelo dos anos 40, pelo qual viajava pela região e em suas viagens ao Rio de Janeiro. Num determinado dia, sem recursos para colocar gasolina, ou por mera opção, ou teste científico, adaptou um botijão de gás de cozinha e foi pela estrada até à cidade carioca. Não sei se foi essa a sua última viagem. Só sei que esse foi a última notícia que tive dele. Daí para frente, o Observatório Centauro e o CEA caíram no abandono. Os aparelhos de observação ficaram sob a guarda da prefeitura, e o local passou a ser moradia de uma família que a usava para residência, estábulo e coisas mais. Contam que porcos e galinhas eram criados no salão. Por ocasião do aparecimento do Cometa Halley, um grupo de cidadãos cambuquirenses resolveu retomar o prédio e realizar os acabamentos necessários para dar àquela construção o seu devido destino sonhado pelo velho “corcundinha”. Com arrecadação junto ao comércio, doações pessoais e até mão de obra de voluntários, o prédio se tornou algo apresentável capaz de servir não só para observação astronômica, mas também para reuniões e palestras. Nesse tempo, foi usado pela AMORECE, uma associação de bairros que também ajudou nas obras e que também fora fundada naquele lugar por um grupo de pessoas do bairro. Da época do início das obras até hoje já se passaram mais de 40 anos, e mesmo assim o sonho do velho judeu ainda não foi concretizado. Hoje o prédio está no meio de inúmeras construções e iluminação noturna dos postes que prejudicam a observação, havendo necessidade de se construir um novo local mais afastado se a cidade quiser mesmo ser um ponto de referência na região para essa ciência. Talvez, uma troca com a prefeitura por outro prédio por ela construído para essas finalidades pudesse transformar o local em um espaço público. Só assim, poderá a cidade realizar o sonho de Sigmund Szabó e seus diversos discípulos cambuquirenses que também já não estão mais entre nós como Marino e Ronaldo Maia, Luigi Buggini, D.Ida Willig Guimarães, e muitos outros. .......................................................................................................................................................... NOTA Na segunda etapa da construção, o projeto Halley foi montado com um grupo de pessoas interessadas na conclusão da obra e na preparação do local para esse evento astronômico. Entre eles estavam:Dóris, Comandante Elifas,João Moura, Dr. Hernani Ferreira e esposa, Sr. João Toledo e esposa, entre outros tantos, que ao lado da AMORECE com Antônio Eustáquio, José Maria e outros conseguiram deixar o prédio em condições de uso. “O autor deste texto foi um dos meninos que quebrou pedra para fazer brita nas obras do prédio”. “Até hoje ele se recorda das diversas marteladas que deu no dedo polegar esquerdo nos momentos de distração”.
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