
Certa vez um senhor foi à Cambuquira, Estância Hidromineral famosa do Sul de Minas, para descansar alguns dias e aproveitar de suas boas águas e clima ameno.
Sua viagem foi longa e penosa. Mas, viajou contente, certo que compensaria.
Após algumas horas de viagem do Rio de Janeiro, finalmente chega à Rodoviária da cidade. Desde cara teve boa impressão daquele lugar. O ar puro com sua brisa fresca que era soprado do bosque que cercava a área urbana enchia os seus pulmões de vida. Tudo era diferente dos grandes centros que conhecida e o povo alegre e amistoso refletia a felicidade estampada no rosto.
Já descia do ônibus quando ouviu alguém se dirigir ao guarda:
“__ Zé Boi! O Canarinho está te chamando!”
“__ Já vou! “ Respondeu o militar.
E o visitante ainda ouviu a conversa com o tal Canarinho:
“__Olha a delegado está no telefone e pede que você vá até a praça de esportes, pois o “Porco” está brigando com o “Mane boca de peixe”, briga essa que teria começado lá pelos lados dos “Lobos”.” Explicou Canarinho que trabalhava na agência de veículos da família.
Nesse intervalo um engraxate já se oferecia para dar um trato nos seus sapatos, no que levou uma bronca do gerente da estação que deixasse o turista em paz pois deveria estar cansado da viagem:
“__Pulguinha... não perturba! O homem está exausto da viagem.!
O turista pensou consigo: “será que aqui ninguém tem nome, ou tem nome de bicho?”
Solicitou uma charrete para levá-lo ao hotel. E, como charreteiro cochilava serenamente no seu veículo mascando uma folha, um dos presentes no local foi até ele e disse:
“__Lagarto! Lagarto! Tem corrida p’rá você....”
Mas não é possível!...(Reclamou o turista.) Outro bicho?!...
Subiu a Rua Direita rumo ao hotel Globo onde ele tinha feito reserva e no caminho continuou ouvindo as conversas do povo. Alguém no telefone público falava:
“__Alô?!...É o Pinto? Aqui é o Tião Tatu.... Sabe? Eu tenho um recado do Tio Jaguar.....”
“__Meu Deus!...”.Exclamou o carioca.
No hotel já acomodado se dirigiu à sala de jantar e pediu a refeição ao garçom que passava que devido ao grande movimento de turista não lhe deu muita atenção. Então o gerente do restaurante interpelou o empregado e disse:
“__Galo! Galo! O moço já está à mesa e quer ser servido.”
“__Já vou Preá, só estou esperando o Luiz Porquinho acabar de fazer a refeição.”
“__O porquinho era o cozinheiro? Não é possível! Será que dá para comer isso? “ Falou baixinho o nosso visitante. E, teve nojo da comida. Afinal, Porco não é um animal muito asseado.
Naquela noite, o porteiro de plantão era o “Grilo”. Que sufoco!...
E, assim foram se passando os dias e nas suas caminhadas sempre ouvia alguma conversa entre os populares e sempre tinha bicho, e outros apelidos, no meio.
Descobriu que tinha uma senhora no bairro da Lavra que se chamava Zezé Galinha, que um rapaz que namorava a filha do dono do Hotel era o Sapo do Major, que o marceneiro que cuidava dos móveis era o Sr. João Siriema, que um dos garçons se chamava “Zé Boi Gordo”. Soube que o pessoal acostumava levar os turistas para curtir a vida no campo lá na fazenda do Sr. Nico Beija-flor. E, que um serviçal da prefeitura era chamado de “Marreco”, outro de “Pé de Pato”. Conheceu o João Pomba, o Nestor Sabiá que vendia material de construção, o Hélio Gatinho que tinha um caminhão que fazia transportes para os comerciantes, além do menino Coruja, que não queria saber de nada...
Com a sua permanência foi se familiarizando com os nomes daquele povo simples. Nas suas andanças pela cidade acabou por concluir que nem só de bichos eram servidos os habitantes para colocar apelidos. Tinha o “Cocô-Marelo”,“Zé-troção”,“Firestone” (mecânico),“Cavaquinho”, “Fubá”,” o Prefeito Museu”, o menino “Pudim”, “Pão Veio”, o menino “véio”, “Boião”, “Zé da Faca”, “Maria Sem Tripa”(que virou personagem histórica, casou e foi morar na França), “Quatro contos”, “Seu Quatorze”, “Marreta” ou “Marrêtis”(que dizem foi a inspiração para o modo de falar do personagem “Muçum)” e outros mais.
Ouviu dizer que “Seu Antônio Vaca Brava” tinha enterrado mais um!...(Cruz Credo!..)
E, antes que fizesse mau juízo da cidade alguém explicou que Vaca Brava era o administrador do cemitério.
O turista começou a se apavorar. Temia que alguém lhe desse algum desses apelidos que ele detestava e tivesse que carregar pelo resto da vida. Alem de tudo, trabalhava na “Cica” (Indústria de Alimentos) e era gordinho.
“__será que vão me chamar de elefante?” Indagou-se.
Acabou por bem se trancar no quarto e só saia na janela de vez em quando e a fechava rapidamente. Repetia isso por várias vezes, o que chamou a atenção do povo. A notícia da sua mania já se espalhava pela cidade e começou a virar motivo de apostas entre os freqüentadores da avenida.
Chegou o dia de ir embora. Malas prontas lá foi ele rumo à rodoviária ajudado por dois meninos: Jacaré e seu amigo Rui Gambá (também conhecido como o Capeta, neto do Armando Coisa Ruim.)
Entrou no ônibus apressadamente, mas esqueceu as bagagens lá fora.
“__ Alguém esqueceu essas malas!” Gritou o auxiliar do motorista do ônibus.
“___De quem são?! “ Acrescentou um funcionário da rodoviária.
Tião Sucuri, um rapaz muito gentil não retrucou em responder:
Essas malas, pelo que vi, são daquele homem que estava hospedado no Hotel Globo.
“___ Qual?” Retrucou o gerente da estação.
“___ Daquele homem que abria e fechava a janela várias vezes por dia como um relógio.
“__Ah!...Já sei. São do “Seu Mané Cuco”!....

Assim, seu Manoel, o gordinho carioca de nascimento passou a ser conhecido como o “Cuco de Cambuquira” e levou a lembrança da cidade que o acompanhara por toda a sua vida.
Nunca mais ninguém ouviu falar mais dele. Com certeza não voltou mais à cidade.
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