sexta-feira, 14 de março de 2008

BATATA DOCE.

Ela detestava esse apelido, que não sei porque ficou conhecida.
Adorava que a chamassem de Luiza, o seu nome de batismo, embora quase todo mundo a conhecia mesmo como “Batata” ou “Batata Doce”.
Quando me via, nos dias de bom humor, ela se dirigia a mim com uma pergunta repetida continuamente. E, mesmo que eu confirmasse a sua indagação sobre o meu nome ela continuava a repetir por diversas vezes. No final, entoava, para completar, um sonoro “é!...”
__Seu nome é Roberto, Roberto da Naninha. Roberto, não é Roberto? É!...
Para não contrariar, sabendo que ela ficaria furiosa se não confirmasse, eu afirmava:
__Sim! Sou o Roberto da Naninha.
__Pois é Roberto da Naninha, Roberto da Naninha........ “Ela repetia mais um tanto de vezes.
Mas, tinha dia que nem podíamos dizer-lhe: “Oi Luiza!”.
Quando estivesse de mau humor, o melhor seria era fingir que nem a conhecia. Pois, se estivesse enganados com relação ao seu estado de espírito, ela até poderia vir de novo com a mesma indagação:
__Roberto da Naninha? Pois é! Roberto da Naninha.

Diziam que ela num daqueles acessos de mau humor, certa vez pegou um menino lá no Bairro da Lavra e deu-lhe várias dentadas que o levaram para hospital para alguns pontos no traseiro. Mais tarde, esse garoto tornou-se prefeito da cidade. As pessoas até brincavam com esse episódio e diziam em tom jocoso que só a Batata Doce tinha condições de dar um jeito naquele prefeito.

Mas, o episódio mais engraçado aconteceu com dois primos meus: João Roberto e Dirce.
Minha tia, muito brincalhona, para chatear o filho dizia que quando ele crescesse ele iria se casar com a “Batata Doce”. E, num dia ela comentou com Luiza sobre essa “promessa”:

__Luiza, quando João Roberto crescer, ele vai se casar com você!...

E, não é que ela acreditou.Com o passar do tempo, ela foi à casa de minha tia para cobrar o cumprimento da promessa. Queria mesmo se casar com o jovem rapaz e não desistia disso. Minha tia contornava o fato com desculpas de que ele ainda era muito jovem e que estava estudando.
Mas, num dia,Dirce, irmã do jovem João,irritada com tanta persistência, acabou por falar sério com ela. Disse-lhe que não havia condições daquilo acontecer e que ele era um rapaz jovem e ela já idosa.
Para que ela fez isso? Luiza tomou de um ódio mortal pela “cunhada” e saiu depressa da casa para nunca mais lhe dirigir uma palavra e nem voltar à caça daquele noivo. Mais tarde as duas se encontraram na Prefeitura, onde Luiza se dirigiu para indagar sobre alguma coisa.Dirigiu-se à Dra. Mariângela, assessora do prefeito que ficava no mesmo recinto. Como esta estava ocupada, Dirce resolveu se dirigir a Luiza para esclarecer-lhe sobre a sua indagação. Luiza virou o rosto como alguém que levava um a bofetada e falou em alto e bom tom:

“__Oh Mariângela! Mariângela! Diz pra essa menina que a conversa ainda não chegou na cozinha não!...

Todos riram muito, menos Luiza que continuou muito séria.
Mas, Luiza, ou “Batata Doce”, como todos a conheciam, era uma pessoa ativa nos seus negócios. Recebia uma aposentadoria como doméstica com a qual pagava corretamente as suas continhas.Inclusive tinha uma continha na Loja do Pinguinho onde todo mês ela ia lá para pagar a sua prestação.
Nos últimos tempos, teimosa como era, fugia da Vila Vicentina onde não queriam que ela saísse mais, devido à idade. Mas, como o portão nunca era trancado. Luiza saia para os seus passeios e quando voltava já era noite. Isso quando não resolvia dormir na via pública mesmo.
Numa dessas saídas, ela dormia assentada na soleira da porta da casa do Sr. Teófilo Silva, perto do Supermercado do Jaime. E, foi nessa mesma soleira que Margô a fotografou, talvez num dia de bom humor pois ela não se opôs a isso. E, com certeza deve ter passado a noite lá.
Não sei quando foi a sua passagem. Só sei que ela não está mais conosco e com certeza faz falta na paisagem de Cambuquira.

Para mim, ao olhar sua foto vejo que ela ainda se dirigiu à Margô que a fotografava. Mas, essa mesma cena me faz lembrar nas suas constantes indagações:

“__Você é o Roberto da Naninha. Não é? Roberto da Naninha! É!...."

Um comentário:

Unknown disse...

Nossa eu gostava muito dela,eu ainda era pequena quando eu e meu irmao tinha medo dela,pensando que ela a mulher do saco e ia pegar agente..