Para quem não nasceu ou viveu em Cambuquira, o título pode até soar como mais uma comida típica mineira. Mas, não é. “Feijão Prá Janta”foi o apelido que deram a um desses seres “especiais” que vêm ao planeta terra com alguma missão que os pobres mortais, dito normais, não conseguem entender. Mas, pode crer que nada acontece por acaso e tudo tem a sua explicação de “ser” ou “não ser”. Seu nome, salvo engano, ele nos contou certa vez e há muito tempo atrás, era José Reis. Mas, ninguém sabia desse seu nome de registro pois todos, como “Capricho”, o conheciam como o saboroso nome de “Feijão”. Aliás, com sobrenome e tudo: “Feijão Prá Janta”.
A primeira vez que o vi, foi nos meus longínqüos doze anos, quando nos mudamos para o “Bairro Carioca”, naquele tempo com o apelido nada pomposo de “Pasto do Dr. Ordomundi”, pois quase não existiam casas por lá.
José Reis apareceu na minha casa com um boné de pano cheio de chuchus e ofereceu a minha mãe, que mesmo receosa aceitou para mais tarde jogar tudo na lata de lixo. A razão da sua atitude era que os cabelos do jovens rapaz não tinha mais lugar para “lêndeas”. Em troca daquele presente, minha mãe que já o conhecia, lhe deu um lanche que ele saboreou muito contente. E, assim ele acostumou a passar sempre por lá para pedir alguma coisa.
Com o tempo, José Reis virou “Feijão Prá Janta”. O motivo: ele passou a pedir dinheiro. E, quando lhe perguntavam para quê, ele respondia:
“__Prá comprar feijão, feijão prá janta.”E, assim todo dia ele passava por lá com o mesmo argumento: “prá comprar feijão prá janta.”
Na realidade, o pobre José Reis já era viciado num cigarrinho de palha ou de papel. E, o dinheiro era mesmo para comprar cigarros, que ele fumava sem parar até tornar os seus dentes todos amarelos.
Com o correr do tempo, Feijão Prá Janta já declarava que o dinheiro era mesmo para “comprar cigarrinho” , “tomar cafezinho”e “feijão prá janta”, é Claro!...
Todo dia ele passava pelo bairro e se dirigia a zona rural do Marimbeiro e Miranda de onde ele voltava à tarde com um saco de palhas de milho nas costas, encomenda de sua mãe que trabalhava com artesanato, de onde ela tirava recursos para o sustento de José e de mais uma irmã.
Nos últimos anos de sua vida, levaram-no para viver na Vila Vicentina, onde ele virou uma espécie de porteiro, que ele mesmo deve ter escolhido para continuar esmolando com o velho costume e os mesmos argumentos de sempre; “cigarrinho, cafezinha e feijão prá janta”.
Depois nunca mais o vi. E, mais tarde, soube que teria terminado a sua missão na terra e não estava mais entre nós. Mas, o sonoro “feijão prá janta” ainda ecoa na mente na minha mente e na de muitos cambuquirenses que o conheceram. Como um anjo que nunca prejudicou ninguém foi, como outros tantos especiais que têm a missão de nos fazer refletir sobre a existência de cada um de nós.
Na foto acima, gentileza de Margarida Camerini, José Reis Feijão Prá Janta parece que entendia bem o sentido daquele momento e sorriu,com o seu sorriso literalmente amarelo, para posteridade.
Um comentário:
Eu me lembro de que quando vinha de férias de Brasília, eu sempre o encontrava na frente da casa de minha tia, na Álvares Cabral.Meu pai me mandava levar cigarro ou dinheirinho para ele.Ele tinha um sorriso no olhar e tb tinha medo das pessoas, não de todas, de vez em quando falamos dele.Ele era um ser espiritualizado, Hj moro em Cambuquira, e de vez em quando me dá uma saudade enorme dessas pessoinhas especiais que se foram....Abraços
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